Parte 2 - A carta, as sombras e a fuga
No dia seguinte, todos despertaram quase ao mesmo tempo. O sol mal terminara de despontar no horizonte, mas a taverna, situada na zona portuária, já fervilhava de atividade — sem contar os bêbados que permaneciam desacordados pelos cantos do salão.
Sem perder tempo, Wilson desceu a gasta escada de madeira e dirigiu-se à mesma garota da noite anterior, que limpava agilmente o balcão de carvalho:
— Bom dia, senhorita. O mensageiro já se encontra por aqui nesta manhã?
No bolso de suas vestes, ele guardava uma carta dobrada, redigida por ele mesmo e endereçada ao seu próprio pai, na esperança de sanar certas dúvidas a respeito do homem que os contratara:
"Pai, estou com meus amigos e saímos para uma viagem que pode levar alguns dias. Escrevo-lhe, pois, quero perguntar se conhece um homem chamado Aldous Thorne... Quero saber se existe algum registro na capital que nos conte algo sobre ele. É o nosso contratante e nos disse que sofreu uma baixa vindo por mar até Landora. Se souber de algo ou se houver algum registro, peço que envie um mensageiro pela estrada do Caminho do Sul; estaremos próximos à ponte do Rio do Norte.
Obrigado, pai. Wilson."
A menina correu os olhos pelo salão em uma varredura rápida e atenta até encontrar o alvo:
— Ali está o Keisel... — indicou com o queixo. — Aquele de cabelo ruivo ajeitando a mochila na mesa lá nos fundos é o menino que te falei.
Wilson caminhou até o sujeito e percebeu que a garota exagerara na descrição: não se tratava de um menino, mas de um rapaz, porém com o rosto jovem e alegre, com sardas e cabelos vermelho fogo — um homem, mas ainda em formação. Wilson entregou-lhe o pergaminho dobrado junto do pagamento em moedas. Sem delongas, o mensageiro guardou a missiva no bornal e disparou porta afora, sumindo na neblina matinal do porto.
Wilson trazia no sangue a linhagem de um influente Guarda-Selos. A chancelaria de seu pai, onde o jovem trabalhara antes de tomar as estradas, era o cartório mais respeitado da capital de Landora — uma instituição de prestígio, com selo de oficialização concedido pelo próprio Rei.
A pergunta inevitável, contudo, ecoava por onde ele passava: o que levaria um rapaz a abandonar uma vida abastada, o luxo dos salões e a segurança da coroa para arriscar a pele pelo mundo, dedicando-se ao estudo de uma arte tão temida e grotesca quanto a necromancia?
A resposta residia na pura moralidade.
Durante os cinco anos em que operou entre as estantes poeirentas e os documentos confidenciais do arquivo paterno, Wilson testemunhou a podridão oculta no topo. Descobrira como nobres, mercadores e abutres burocratas tiravam proveito das brechas da lei para se apoderar de fortunas, terras e títulos. O esquema repetia-se sem piedade sempre que alguém sofria uma morte prematura, não deixava herdeiros diretos ou — como em muitos casos maquiados — acabava misteriosamente assassinado.
Para Wilson, a necromancia não era uma busca por tirania ou profanação, mas a única ferramenta capaz de dar voz aos mortos para que a justiça, enfim, prevalecesse sobre os vivos.
Determinado a mudar essa realidade, Wilson mergulhou de cabeça nos tomos das artes sombrias. Há um ano ele devorava pergaminhos banidos e manuscritos proibidos. Embora nunca tivesse encontrado um mestre de carne e osso para guiar seus passos, sua mente afiada e sua disciplina de arquivo fizeram dele um exímio autodidata na necromancia.
Seu plano era tão ambicioso quanto inusitado: usar a magia negra não para erguer exércitos de escravos cadavéricos, mas para intimar as próprias vítimas de volta à vida por tempo suficiente para testemunharem em audiências oficiais. Queria transformar o trabalho da chancelaria em algo impecável e implacável, cortando pela raiz o golpe dos oportunistas de plantão. Afinal, perdera a conta de quantas vezes ouvira nobres e impostores alegando com lágrimas de crocodilo:
— Meu tio e seus filhos foram comidos por uma aberração na estrada, vim reivindicar a mansão e as terras da família.
Com Wilson e a arte dos mortos ao lado da lei, esse tipo de encenação estaria com os dias contados.
— O que está fazendo aí, Wilson? — questionou Rowoon, terminando de descer os últimos degraus de madeira. Logo atrás dele vinham Didrik e Ethan — este último esfregando os olhos, visivelmente arrastado pelo sono.
— Apenas enviando um recado ao meu pai. Nada com que se preocuparem — respondeu o necromante, guardando as moedas restantes no bolso.
— Todos reunidos, vejo eu! — anunciou a voz rouca de Aldous do topo da escada.
Sem tempo a perder, o bando devorou um café da manhã rápido e tratou de pôr os pés na estrada. Quanto mais cedo partissem, menores seriam as chances de a noite apanhá-los desprotegidos no meio do nada. A comitiva acelerou o passo e logo no começo da manhã, vencendo vários quilômetros em uma marcha acelerada pelas boas condições da estrada da capital. Logo alcançaram a ponte que cruzava o caudaloso Rio do Norte — uma estrutura colossal e resistente que marcava o limite exato da jurisdição e da proteção dos exércitos de Landora.
Dali em diante, o sinal estava dado: quem quisesse cruzar para o outro lado teria de garantir a própria pele.
— Alto lá! — ordenou o brado firme na borda da travessia.
— Capitão Arnold. Quanto tempo. — Disse Ardous cordialmente.
— Vejo que está bem senhor Thorne. Bom ver o senhor novamente. Precisamos apenas conferir a mercadoria que tem na carroça.
— Fique à vontade Capitão.
Era mais de meio-dia quando a comitiva alcançou a Ponte do Rio do Norte. O capitão responsável pela guarnição gesticulou para que se aproximassem. Ao redor, outros guardas mantinham-se num estado de prontidão displicente, observando o grupo sem grande alarde. O capitão mediu cada um com o olhar — seis homens armados, entre o aço dos veteranos e os misteriosos recém-chegados.
Reconhecendo os dois guardas de outras travessias, o oficial deu a volta no veículo.
— Senhora Helena, como vai nesse dia ensolarado? — cumprimentou com gentileza respeitosa.
A mulher respondeu com um sorriso leve e um aceno afável. Sua filha sorriu para o capitão e o rapaz disfarçou um sorriso de admiração. Concluindo a verificação do conteúdo da carroça, o capitão pegou a autorização estendida por Aldous, leu as selagens com atenção e fez um sinal de mão em direção à guarita. Ali, dois soldados empurraram uma pesada alavanca de ferro, fazendo os rolos de correntes rangerem e liberarem a passagem.
— Cuidado no caminho, Aldous. A estrada tem ficado mais perigosa nestas últimas semanas — alertou Arnoud, abaixando o tom de voz. — Estão chegando boatos ruins de praticamente todos os viajantes que cruzam por aqui.
— Obrigado, Capitão. Tomaremos todo o cuidado — respondeu Aldous, ajustando as rédeas com firmeza.
Observando a conversa de uma certa distância, Wilson e Rowoon cochichavam.
— Você não achou estranha toda essa história da escolta e essa quantidade de gente para proteger apenas uma carroça, Rowoon? — questionou Wilson, quase em um sussurro, emparelhando os passos com o companheiro.
Rowoon assentiu em silêncio, concordando com a suspeita. Contudo, não houve tempo para estender a conversa: o solavanco da madeira anunciou o movimento da carroça, e o grupo pôs-se a marchar. À exceção de Aldous e sua família, que seguiam instalados no veículo, todos os demais faziam o percurso a pé.
O clima estava longe de ser ameno. A cada hora que marchavam, a temperatura parecia despencar mais e mais; o inverno aproximava-se a passos largos, e o ar gélido cortando o rosto era apenas o prenúncio dos dias brancos e implacáveis de neve que logo cobririam o continente.
Já no limiar da tarde, quando as sombras começavam a se esticar na terra batida, Aldous puxou as rédeas e parou a carroça repentinamente. Wilson e Ethan, que vinham logo atrás na retaguarda, inclinaram a cabeça para enxergar além da cobertura do veículo.
Vários passos adiante, logo após uma bifurcação na estrada, jaziam um cavalo e seu cavaleiro, estirados e imóveis no meio do caminho.
Uma tensão pesada e gélida cortou o ar instantaneamente.
Didrik e Cassius adiantaram-se até os corpos para examinar o local do ataque. Ao mesmo tempo, os demais assumiram posições de guarda ao redor da carroça; as armas saltaram das bainhas e as cordas dos arcos foram retensadas — cada um a seu modo, alerta para qualquer movimento na mata.
— O que aconteceu aí? — tentou perguntar Wilson, da retaguarda, mas sua voz perdeu-se no vento e não alcançou os companheiros à frente.
Ajoelhado ao lado do cavalo, Cassius inspecionava os estragos com olhar curioso e atento. Havia marcas de mordidas profundas e ferozes por todo o torso do cavaleiro, enquanto o ventre da montaria fora completamente rasgado e devorado.
— Será que foi um lobo? — questionou Didrik, quebrando seu silêncio habitual.
— Nããão... — arrastou a palavra Cassius, balançando a cabeça. — São ferimentos demais e brutais em excesso. Veja bem: um lobo solitário jamais faria um estrago desse.
— Pode ter sido uma matilha inteira — insistiu Didrik, encarando a carne dilacerada.
— Se fosse uma matilha inteira, não teria sobrado nem o osso para contar a história — retrucou Cassius, estreitando os olhos.
Rowoon dava pequenos passos à frente, flanqueando o lado esquerdo da carroça enquanto mantinha a corda de seu arco curto levemente tensionada, pronta para disparar. Na lateral oposta, Ethan e Pandor mantinham-se a postos, olhos atentos a qualquer farfalhar na vegetação — torcendo intimamente para que o silêncio durasse e nada surgisse da mata.
Na retaguarda, Wilson iniciou uma varredura cautelosa pela direita do veículo. Contudo, mal se afastara alguns metros da estrutura de madeira quando um vulto furtivo, cruzando a penumbra das árvores, travou seus passos e fez o sangue congelar nas veias.
— Soooommbbrraas! — gritou ele a plenos pulmões.
No exato instante de seu brado, outras duas formações sombrias emergiram da vegetação, cercado a comitiva. Uma delas surgiu perigosamente próxima a Rowoon; a outra materializou-se logo à frente de Ethan e Pandor.
Wilson já havia lido sobre aquelas abominações nos tomos proibidos da chancelaria: eram seres intangíveis que rondavam locais de tragédia e massacre — muitas vezes a própria alma corrompida e sedenta de sangue de quem acabara de ter a vida ceifada no local. Impossíveis de serem contidas ou agarradas por mãos humanas, o necromante tentou desesperadamente resgatar na memória o que seria capaz de feri-las. Mas, fosse pelo pânico do momento ou pela escassez de detalhes nos tomos, a resposta não veio.
Independente da dúvida, ele não hesitou. Wilson ergueu a mão direita para o alto e, sem pestanejar, pronunciou as palavras de poder.
Da palma de sua mão estendida emanou a única magia que lograra dominar ao longo de seu ano de estudos solitários. Um projétil célere disparou para os céus, descrevendo um semicírculo cintilante no ar gélido antes de se chocar violentamente contra a aberração incorpórea que se movia em sua direção.
Ao ser atingida, a sombra emitiu um sibilo estridente e cavo — um som gutural de pura negação e dor. Sua superfície enevoada agitou-se como fumaça sob tempestade, e de sua massa escura projetou-se um par de garras espectrais, afiadas e gélidas. O mesmo fenômeno repetiu-se nas outras duas entidades, que continuaram avançando implacavelmente contra o grupo cercado.
Rowoon não perdeu tempo: tensionou a corda do arco ao limite e soltou. A flecha cortou o ar com um assobio, mas atravessou a sombra sem causar dano algum, como se acertasse um mero fantasma.
Do outro lado do veículo, o brado de alerta de Wilson ecoou:
— Tentem usar fogo! Elas não são afetadas por nada físico!
Antes que pudessem processar a informação, Cassius e Pandor avançaram contra as aberrações mais próximas. Suas espadas cortaram o ar em golpes potentes, mas as lâminas de aço apenas varreram fumaça gélida, sem encontrar resistência.
Mais atento à advertência, Didrik buscou uma tocha e tentou acendê-la com pressa. O pânico, porém, cobrou seu preço: na hora de arremessar a fogueira improvisada contra a ameaça, a tocha escapou de seus dedos trêmulos e foi se perder na vegetação densa do acostamento.
A sombra que investia contra Wilson finalmente o alcançou. As garras espectrais rasgaram suas vestes e deixaram um rastro de dor cortante. Por sorte e puro instinto de sobrevivência, o jovem necromante recuou a tempo e agarrou-se com firmeza à carroça.
Aldous já sacudia as rédeas desesperadamente, com os cavalos em em disparada, enquanto urrava a plenos pulmões:
— Fujam! Fujam!
Ethan, percebendo a ineficácia dos ataques físicos após a investida fracassada de seus companheiros, entendeu na hora que permanecer ali não seria uma batalha, mas uma sentença de morte.
Frustrada por ter perdido seu alvo, a sombra tentou alcançar Helena e a filha, encolhidas no fundo da carroça. O espectro esticou suas garras na direção das duas, mas a estrutura de madeira já ganhava velocidade pela estrada, deixando a abominação para trás por uma fração de segundo.
Tomando a bifurcação que cortava em direção ao leste, o grupo disparou sem olhar para trás, com todos se agarrando como podiam às laterais e à traseira da carroça em disparada.
À medida que se distanciavam do local do ataque, avistaram mais à frente, flechas, lanças e vários corpos de Gnolls e hienas jaziam mortos na beira da estrada, como se uma batalha sangrenta tivesse estancado ali a poucas horas. Ninguém ousou pedir para parar ou investigar; a prioridade era salvar a própria pele.
Marcharam sobre o bater estrondeante das rodas até que os cavalos começassem a dar claros sinais de exaustão. Aldous finalmente puxou as rédeas ao avistar uma clareira aberta, supostamente segura para armarem um acampamento e tomarem fôlego. O grupo desabou no chão, completamente exausto e ainda assimilando o terror do confronto.