Parte 1 - O mensageiro, os pobres e os necessitados
Era um dia qualquer numa capital fervilhante de gente, o tipo de lugar onde nascem as mil e uma lendas que os bardos cantam por tostões de prata. Como manda o velho costume, tudo começou no salão escuro de uma taverna. Um cliché, sem dúvida, mas é assim que a roda gira nas terras de Valansia.
O ar dentro da estalagem era pesado, impregnado pelo cheiro de suor, cerveja azeda e carne assada. Bêbados vociferavam nos cantos, mercenários de feição dura trocavam olhares desconfiados e homens cautelosos mediam cada gesto ao redor. Naquele antro, sabia-se de tudo — bastava encontrar a língua certa e alimentá-la com o peso da moeda adequada.
Rente à pesada porta de carvalho, um garoto mantinha os ouvidos atentos, faminto por qualquer boato que lhe rendesse um trabalho como mensageiro. Seu olhar fixou-se numa mesa próxima, onde um homem de ombros largos e um anão de barba espessa conversavam em voz baixa. Ao lado deles, acomodavam-se mais três figuras: uma mulher de feições cansadas, claramente a esposa do homem, e seus dois filhos — um rapaz que beirava os dezesseis anos e uma garota mais nova, que mal completara seu décimo primeiro inverno.
Os homens discutiam a travessia entre a capital, Landora, e a distante Kardarin. Cruzar os portões da cidade e deixar para trás a vista das patrulhas de guarda era, para qualquer um, assinar a própria sentença de morte. O mundo além dos muros não era apenas implacável; era caótico e voraz.
Ali fora, o viajante não arriscava apenas a bolsa para bandidos de estada real, nem a carne para matilhas de lobos ou ursos famintos. O ermo abrigava abominações que a razão humana mal conseguia conceber: feras esquecidas pela história, espectros feitos de luz e fumaça, sombras venenosas que rastejavam pelo ar e dragões que cortavam o céu aberto, caçando à plena luz do dia. Diante de tantas forças destrutivas, a própria existência da humanidade parecia um milagre absurdo. Como algo tão frágil e ínfimo quanto o homem havia conseguido sobreviver a tudo aquilo?
Contudo, nem só de fragilidade se tecia a carne do mundo. Se a imensa maioria dos homens não passava de camponeses curvados pelo trabalho, plebeus miseráveis e mercadores assustados, ainda havia aqueles que empunhavam o aço com ousadia. A própria guarda de Landora era uma força temível, longe de ser composta por meros camponeses com lanças. Seus homens eram temperados num treinamento rigoroso, mestres no manejo das armas e versados em artes arcanas de defesa — preparados para repelir desde o cerco de exércitos rivais até as monstruosidades que emergiam da noite.
Para além das patrulhas muradas e dos exércitos dos reis, existia a verdadeira seiva que movia aquele mundo hostil: os aventureiros. Eram bando de rebeldes e mercenários, quase sempre formados por amigos de longa data ou por estranhos unidos pelo acaso do sangue — sobreviventes de emboscadas contra saqueadores em estradas poeirentas, que haviam jurado proteger a própria pele lado a lado. Naquelas terras, cruzar florestas fechadas ou caminhos esquecidos sem uma comitiva armada era pedir para ser sepultado; viajar reunidos não era uma escolha, era o único pacto capaz de garantir o nascer do próximo dia.
Longe do alcance de qualquer lâmina ou garra, a atenção do garoto desgarrou-se da conversa dos viajantes e pousou em outra mesa. Ali, o vinho corria solto, o riso era alto e a carne assada desaparecia entre pratos de estanho. Quatro figuras celebravam. O assunto não era outro senão o rastro de perigos que haviam deixado para trás ao alcançarem Landora; agora que o terror da estrada se desvanece, as quase tragédias soavam como piadas sagazes entre taças erguidas.
O bando era composto por três humanos e um meio-elfo — uma combinação curiosamente simples para um mundo onde a sede por sobrevivência costumava agrupar a mais bizarra e variada profusão de raças sob a mesma fogueira.
Haviam se cruzado há menos de um ano e não respondiam a nenhum líder; eram apenas companheiros de estrada, vivendo de pequenos contratos para garantir a próxima refeição. Didrik era o mais largo do bando, um sujeito maciço de poucas palavras e olhar soturno. Ao seu lado, Rowoon narrava a história com estardalhaço, gesticulando entre gargalhadas e apontando para os companheiros — ambos eram guerreiros vindos de extremos opostos e sangrentos de Valansia.
O terceiro era Ethan, um meio-elfo de feições finas, abandonado pelo próprio sangue e criado sob a tutela de um poderoso mago. Por fim, Wilson: um homem de sorriso fácil que, impulsionado por uma estranha e distorcida empatia, decidira devotar seus estudos à necromancia.
Os segredos que carregavam, os juramentos quebrados e o destino que o ciclo da vida reservava a cada um deles revelariam-se no devido tempo. Afinal, as melhores tragédias não entregam suas lâminas antes da hora.
A atenção do garoto desgarrou-se mais uma vez, passando por uma terceira mesa até pousar no balcão, onde o taverneiro lhe acenava com um gesto brusco de cabeça. O jovem estava no limiar da juventude, naquela idade em que os ombros começam a alargar e a infância se esvai.
Moveu-se com a agilidade silenciosa dos moleques de rua até alcançar o homem. O taverneiro murmurou-lhe poucas palavras de ordem e colocou em suas mãos uma pequena caixa de madeira. Sem perder um segundo, o garoto disparou em direção à porta da frente, sumindo na penumbra da rua com o pacote apertado contra o peito.
A atenção da narrativa se divide então entre dois destinos prestes a se colidirem, unidos pela pura e simples necessidade. De um lado estava a busca desesperada por proteção — pela vida da própria família e pela preservação das mercadorias.
Aldous Thorne, um mercador de olhar cansado e bolsas minguantes, varria o salão em busca de lâminas dispostas a vender seus serviços. Seu objetivo era contratar uma escolta capaz de guiá-los em segurança até Kardarin, uma jornada de vários dias a cavalo seguindo pelo perigoso e incerto Caminho do Sul.
Do outro lado, o bando de aventureiros passava longe de ser uma comitiva de guardas profissionais. Contudo, aquele era exatamente o tipo de trabalho sujo e sangrento que aceitariam — afinal, a cerveja não era de graça e a carne assada cobrava seu preço.
Absortos em suas gargalhadas, não notaram que eram vigiados a poucos passos dali. Homar, o influente mestre da forja central de Landora, gesticulava discretamente com o queixo em direção à mesa dos quatro homens para que Aldous os avaliasse. O anão tinha o faro apurado para reconhecer aventureiros a léguas de distância; sabia muito bem que o brilho de um punhado de moedas de ouro seria o suficiente para convencer aquele bando a escoltar a carroça do amigo.
Homar levantou-se pesadamente, acompanhado por Aldous, e ambos caminharam até a mesa dos quatro mercenários.
— Com licença, senhores. Uma palavra? — resmungou o anão com sua voz rasgada pelo fumo e pela fresta dos dentes, fazendo um gesto curto com a mão calejada. — Não precisam se levantar.
Os quatro se viraram de pronto. O riso solto apagou-se aos poucos, substituído pela desconfiança natural de quem ganha a vida pelo aço, sem, contudo, pesar o ar no salão.
— Sou Homar. E este ao meu lado é Aldous — apresentou-se o anão, apoiando as mãos no cinto de couro corroído. — Estamos procurando um bando com coragem suficiente para um trabalho de escolta até Kardarin. Por acaso o trabalho interessa aos senhores, ou o vinho já amoleceu seus braços?
Os quatro homens trocaram olhares tranquilos. Entre eles, o "sim" já era certo — afinal, a sola das botas gastas e o estômago vazio não deixavam margem para recusas. Contudo, o ofício exigia cautela; havia uma distância abissal entre guardar uma marcha comercial e marchar para o suicídio no fundo de um fosso esquecido por Deus.
Wilson ergueu sua caneca de hidromel adocicado e fez um gesto hospitaleiro com o queixo.
— Sentem-se, por favor. Vamos lavar essa conversa com bebida.
Duas cadeiras foram surrupiadas de mesas vizinhas sob protestos abafados, transformando aquele canto no tabuleiro mais ruidoso e lotado de toda a taverna.
— Contem-nos o que interessa — disse Rowoon, mastigando um pedaço de carne seca enquanto limpava a gordura nos dedos. — De que tipo de problema estamos falando?
Aldous limpou a garganta, o olhar pesado de preocupação.
— Bem... — começou o mercador, apoiando as mãos trêmulas no tampo da mesa. — Preciso partir daqui rumo a Kardarin com apenas uma carroça. Vendo de tudo um pouco, mas minha verdadeira mercadoria... a prioridade absoluta nessa viagem é a minha família. Vieram comigo de barco até o porto de Landora e não posso permitir que um fio de cabelo de qualquer um deles seja tocado.
As rotas marítimas para a capital partiam de Kardarin e contornavam a costa até Dalmara — uma travessia incomparavelmente mais célere e segura. Contudo, por um golpe de azar, a pequena embarcação do mercador cruzou o caminho de um navio corsário. A batalha custara-lhe cargas preciosas e o sangue de quase toda a guarda encarregada de sua proteção; a própria sobrevivência da família fora um milagre concedido pelos deuses.
Naturalmente, Aldous guardou esse pequeno infortúnio para si. Expor o rastro de sangue e azar que o perseguia seria o mesmo que dar um tiro no próprio pé diante daqueles homens.
— ... Não possuo grandes somas de ouro, mas posso oferecer trezentas moedas ao bando pela viagem toda. Já contamos com dois guardas que vieram conosco de Kardarin. O que me dizem? O contrato lhes agrada?
— Apenas trezentas peças de ouro pela vida da sua própria família? — cuspiu Wilson sem qualquer filtro, a língua solta pelo álcool que já lhe esquentava o sangue.
— Não sou homem de grandes riquezas, meu caro. Estaria mentindo se prometesse um tostão a mais — respondeu o mercador, engolindo em seco.
— Poderia nos dar um momento a sós, senhor...?
— Aldous — completou o mercante, inclinando a cabeça.
— ...Isso. Senhor Aldous — concluiu o meio-elfo Ethan, indicando a saída com um gesto sutil de mão.
Aldous e Homar se levantaram e se afastaram alguns passos, murmurando palavras inaudíveis entre si. À mesa, o meio-elfo mantinha as mãos sob o tampo de madeira, contando secretamente suas últimas moedas pelo tátil do metal. Uma... duas... três... quinze.
— Meus amigos, não gostaria de alardear a desgraça alheia, mas estou mais miserável que os bêbados jogados na sarjeta desta taverna — confessou ele em tom ironicamente dramático. — Pelo amor dos deuses, não temos o luxo de recusar isso.
Rowoon encarou-o com um riso amargo e juntou-se ao lamento da penúria, jurando que, se não conseguissem moedas logo, o bando estaria dormindo no esterco da rua nos próximos dias. Didrik permaneceu em silêncio absoluto, como uma rocha imóvel à mesa; o sujeito raramente gastava o fôlego com palavras. Wilson, por sua vez, apenas torceu o rosto numa careta desaprovadora, encarando o fundo da própria caneca.
— Não sei... Família deveria ter mais valor — resmungou Wilson, balançando a cabeça. — Mas se o bando quer se meter em uma nova empreitada, que assim seja. Afinal, a voz do povo é a voz de Odin — concluiu ele, enfiando na boca o último pedaço de pão duro.
Nenhum dos seus companheiros fazia a menor ideia de quem diabos era Odin. Nem o próprio Wilson se recordava de onde diabos tinha lido aquele nome, mas adorava a imponência de como a palavra soava na língua. Rowoon pigarreou algo inaudível sobre a mania que as pessoas daquelas terras tinham de inventar deuses a cada esquina, mas acabou assentindo com a cabeça.
Wilson fez um sinal com a mão para Aldous, que retornou à mesa acompanhado de Homar.
— Aceitamos sua oferta, meu caro — anunciou Rowoon, cruzando os braços musculosos. — Mas com uma condição: o senhor arca com os custos da estrada. Comida para todos e teto nas estalagens pelo caminho que encontrarmos.
Aldous trocou um olhar rápido com Homar e depois voltou seus olhos para a esposa e os filhos na mesa distante.
— Feito — concordou o mercador, após um suspiro curto. — Se nos depararmos com algum vilarejo no percurso, a cama e a carne ficam por minha conta.
O que o bando nem desconfiava era que a generosidade de Aldous lhe custava muito pouco: o homem carregava uma rede de velhos contatos pelas estradas e sabia como ninguém negociar uma noite sob um teto em troca de favores ou promessas de pagamento futuro. Alheio às artimanhas do mercador, Rowoon abriu um sorriso largo e voltou-se para os companheiros, que assentiram em silêncio, selando o acordo com a sutil cumplicidade dos maus momentos.
Enquanto selavam o contrato, a pesada porta da taverna rangem ao se abrir, dando passagem a uma dupla singular: um homem de postura ereta, vestindo o couro surrado e o aço arranhado dos veteranos de guerra, e um anão de compleição mais franzina, que trajava vestes ornamentadas longe do padrão dos combatentes de linha de frente.
Ao avistá-los, Aldous aprumou o corpo, o rosto iluminado por um alívio genuíno:
— Ah, finalmente chegaram! Venham até aqui! — chamou o mercador, elevando a voz para sobrepujar a gritaria do salão.
Os quatro companheiros trocaram olhares rápidos sob o tampo da mesa, avaliando os recém-chegados em silêncio.
— Estes são Cassius e Pandor. Já vêm escoltando nossa comitiva desde a partida — apresentou Aldous, fazendo um gesto amplo. — Vou deixá-los se conhecerem enquanto subo com minha família para o descanso. Cassius, estes são... — O mercador hesitou, pigarreando. — Como é mesmo que se chamam?
— Perdoe nossa falta de modos. Chamo-me Wilson — respondeu o necromante do outro lado da mesa, sem se dar ao trabalho de se levantar. — Este ao meu lado é Didrik, o Mudo — o grupo soltou um riso curto, enquanto o musculoso guerreiro nem sequer piscou. — Na verdade ele só fala quando quer. Este é Rowoon, o "quase-elfo", vindo das terras mais distantes e esquisitas de Valansia; e por fim Ethan, o sujeito que sabe soltar umas faíscas pelos dedos.
O clima na mesa desanuviou-se em cordialidade. Aldous trocou mais algumas palavras breves, despediu-se com um aceno e conduziu a esposa e os filhos escada acima rumo aos aposentos da estalagem.
A noite avançara a fundo enquanto os homens acertavam os detalhes da marcha. O percurso diante deles era ao mesmo tempo simples e desolador. Simples porque o Caminho do Sul era uma artéria larga e bem traçada, cuja vegetação rasteira custava a engolir a terra batida dos cascalhos; caótico porque a jurisdição e a proteção da guarda de Landora findavam-se a poucas léguas dos portões da cidade. Dali em diante, a estrada tornava-se terra de ninguém, entregue à sorte e às garras de horrores indescritíveis.
A conversa e o banquete estenderam-se pela noite adentro. Entre canecas esvaziadas e pedaços de carne engordurada, Wilson, Ethan e os demais puxaram os fios da história de Cassius e Pandor.
A verdade que emergiu era sombria: a dupla fazia parte de uma companhia maior de aventureiros, contratada para proteger Aldous na travessia marítima. A batalha contra os corsários fora um massacre; a sorte cobrara o sangue de quase todos os seus companheiros, deixando apenas os dois para contarem a história.
A revelação caiu sobre a mesa como um fardo de chumbo. Saber que aceitaram escoltar o mesmo mercador cuja rota recém-trilhada custara a vida de um bando inteiro de veteranos trazia um sabor amargo ao vinho. Ainda assim, com o destino selado no pergaminho, o contrato fora assinado.
No meio do burburinho da mesa, Wilson levantou-se sem alarde para ir ao banheiro. Aproveitando que ninguém notara sua movimentação no salão, ele subiu a gasta escada de madeira. No corredor superior, deteve os passos por alguns segundos diante do único quarto que deixava vazar a luz bruxuleante de uma vela por baixo da porta.
Aproximou-se em silêncio absoluto e apurou os ouvidos. Lá dentro, a voz abafada de Aldous narrava o trecho de um livro de histórias — com toda a certeza para a filha mais nova, já que o garoto mais velho parecia ter deixado as fábulas para trás há bastante tempo. Não se demorou no voyeurismo; satisfeito com a paz da cena, seguiu até o banheiro e logo retornou para a mesa com seus companheiros.
Após os últimos diálogos e um brinde sóbrio em honra aos companheiros tombados no caminho para Landora, todos buscaram o aconchego do sono — afinal, até mesmo aquele pernoite fora bancada pela bolsa de Aldous.
Apenas Wilson permaneceu no salão por mais alguns instantes. Antes de se recolher, chamou uma das três garotas que serviam as mesas e indagou se havia na taverna algum mensageiro disponível para entregar um recado seu. A jovem assentiu com a cabeça, ponderando, contudo, que o garoto encarregado das entregas não se encontrava no local naquele momento.